Conseguir um empréstimo já ficou mais difícil — e a tendência é que esse cenário continue ao longo de 2026. A combinação entre juros mais altos do que o esperado, inflação pressionando o orçamento das famílias e aumento da inadimplência bancária tem levado as principais instituições financeiras do país a adotar uma postura mais conservadora na concessão de crédito.
Na prática, isso significa menos disposição para assumir riscos, maior preferência por operações com garantia e critérios mais rígidos na aprovação de financiamentos e empréstimos.
Bancos adotam postura mais cautelosa
A percepção de um ambiente mais desafiador é compartilhada pelos principais bancos privados do país.
Durante teleconferência com analistas, o presidente do Itaú Unibanco, Milton Maluhy, afirmou que o atual ciclo de crédito exige maior prudência. Segundo ele, houve um excesso de crédito concedido pelo mercado e, neste momento, a prioridade da instituição é preservar a qualidade da carteira, mesmo que isso signifique abrir mão de crescimento e participação de mercado.
No Bradesco, a estratégia segue a mesma direção. O presidente Marcelo Noronha afirmou que o banco reduziu a oferta de crédito pessoal e passou a priorizar operações com garantias, evitando ampliar a exposição ao risco de inadimplência.
Essa postura também aparece nos balanços financeiros divulgados pelas instituições.
Provisões para calotes crescem acima da carteira de crédito
Itaú Unibanco, Bradesco e Santander reservaram, juntos, R$ 28,7 bilhões para cobrir possíveis perdas com calotes no segundo trimestre de 2026.
O valor representa um aumento de 12,4% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto a carteira de crédito cresceu 9,4%, alcançando R$ 3,37 trilhões.
Esse movimento indica que os bancos vêm reforçando seus colchões de segurança diante da expectativa de um ambiente econômico mais desafiador.
Para Daniel Utsch, gestor da Nero Capital, o setor enfrenta um momento delicado.
Segundo ele, a inflação continua reduzindo o poder de compra das famílias, enquanto os juros elevados diminuem a capacidade de financiamento das empresas.
Inadimplência bancária atinge nível recorde
Os dados do Banco Central reforçam essa preocupação.
Em maio de 2026, a inadimplência geral do sistema financeiro chegou a 4,74% do crédito concedido com atraso superior a 90 dias, o maior percentual da série histórica iniciada em 2011.
Após o lançamento do Desenrola 2.0, o indicador recuou ligeiramente para 4,68% em junho. Ainda assim, permaneceu bem acima da média histórica de 3,29%.
Segundo Flávio Ataliba, pesquisador do FGV IBRE, esse cenário reflete não apenas a Selic em 14%, mas também a expectativa de juros elevados por um período mais longo.
De acordo com o pesquisador, a percepção de maior risco fiscal eleva os juros futuros e encarece o custo do dinheiro em toda a economia.
Além disso, no início do ano o mercado esperava que a Selic terminasse próxima de 12%. Agora, a expectativa é de apenas mais um corte de 0,25 ponto percentual, levando a taxa para 13,75%.
Renda comprometida amplia risco de calotes
Outro fator que pressiona a inadimplência bancária é o elevado comprometimento da renda das famílias.
Ataliba destaca que a inflação dos alimentos consome mais de 23% do orçamento das famílias que recebem até um salário mínimo, reduzindo a margem para o pagamento de outras despesas.
Ao mesmo tempo, o endividamento das famílias em 2026 alcançou um novo recorde. Reforçando o cenário que ajuda a explicar o avanço da inadimplência bancária e a maior cautela dos bancos na concessão de crédito.
Em janeiro, o comprometimento da renda acumulada dos últimos 12 meses chegou a 49,93%, o maior percentual da série histórica iniciada pelo Banco Central em 2005. Até maio, último dado disponível, o indicador permanecia muito próximo desse nível.
Embora a taxa de desemprego esteja em uma mínima histórica, a expectativa para os próximos meses ainda inspira cautela.
Segundo Ataliba, os efeitos dos juros elevados costumam demorar para aparecer na economia. Por isso, a tendência é de que a inadimplência continue aumentando ou, pelo menos, permaneça elevada durante o segundo semestre.

Crédito com garantia ganha espaço
Para Yihao Lin, economista da Genial Investimentos, fatores como o fim da guerra no Oriente Médio e um El Niño menos intenso poderiam abrir espaço para novas reduções da Selic, favorecendo o mercado de crédito.
Ainda assim, ele ressalta que uma queda estrutural dos juros depende de avanços na questão fiscal.
Na avaliação do economista, a combinação entre juros elevados, alta inadimplência bancária além de forte comprometimento da renda aumenta o risco das instituições financeiras. Como consequência, o crédito fica mais caro e os bancos adotam critérios mais rigorosos na concessão de empréstimos.
Na prática, esse movimento já aparece na estratégia das instituições.
Os bancos têm concentrado a oferta em modalidades consideradas mais seguras, como crédito consignado para trabalhadores CLT, financiamento imobiliário, financiamento de veículos com garantia e linhas destinadas às pequenas e médias empresas com cobertura do FGI (Fundo Garantidor para Investimentos) e do FGO (Fundo Garantidor de Operações).
Santander, Itaú e Bradesco enfrentam desafios distintos
Mesmo com estratégias mais conservadoras, os três maiores bancos privados reforçaram suas provisões contra perdas no segundo trimestre.
Itaú Unibanco e Bradesco afirmaram que o aumento das provisões acompanhou a expansão da carteira de crédito.
Já o Santander atribuiu o maior gasto com provisões ao ambiente macroeconômico. Segundo analistas, o banco apresentou o balanço mais fraco entre os grandes bancos privados no período, com lucro abaixo das expectativas.
Na avaliação da XP, a carteira de crédito do Santander permanece praticamente estável e a instituição ainda passa por um processo de ajuste do portfólio e reconhecimento de riscos. Para a corretora, a normalização do custo do crédito deve levar mais alguns trimestres.
O Itaú, por sua vez, continua registrando o menor índice de inadimplência entre os grandes bancos, em 1,9% há seis trimestres consecutivos. Ainda assim, o BTG classificou os resultados do segundo trimestre de 2026 como mais fracos do que o habitual. Embora tenha destacado a qualidade da carteira de crédito e o nível conservador das provisões.
O banco também revisou para baixo sua projeção de crescimento da receita com serviços e seguros para 2026. A estimativa passou de uma expansão entre 5% e 9% para uma faixa de 2% a 5%.
Segundo o Itaú, a revisão reflete principalmente a maior volatilidade do mercado em relação às expectativas do início do ano, além da redução das receitas com tarifas de cartões e do aumento dos custos desse produto para clientes de média e alta renda.
No Bradesco, o desafio continua concentrado na inadimplência do varejo.
Mesmo elevando a participação de operações com garantia de 58,5% para 61% da carteira total, os empréstimos destinados às pessoas físicas seguem exigindo atenção, segundo análise do Citi.
Os analistas também apontam que o custo de crédito dos clientes do banco aumentou para 5,9%, ante 5,5% registrados no início do ano.
Para o Citi, a principal questão daqui em diante será avaliar se o crescimento das receitas e os ganhos de eficiência continuarão suficientes para compensar o avanço dos custos de crédito em um ciclo mais desafiador para o sistema financeiro brasileiro.
Apesar desse ambiente, o Bradesco manteve suas projeções para 2026. O banco continua estimando uma expansão entre 8,5% e 10,5% na carteira de crédito e espera uma desaceleração gradual das concessões ao longo dos próximos meses, após o crescimento de 11,6% registrado no primeiro semestre.
O que o cenário indica para o crédito em 2026?
As perspectivas para o restante do ano apontam para um mercado de crédito mais seletivo. Com juros elevados, maior comprometimento da renda das famílias e inadimplência bancária acima da média histórica, as instituições financeiras tendem a priorizar operações de menor risco e reforçar suas reservas contra possíveis perdas.
Enquanto esse ambiente permanecer, a concessão de crédito deve seguir mais criteriosa, refletindo a combinação entre incertezas econômicas e a busca dos bancos por maior segurança em suas carteiras.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento, crédito ou decisão financeira. Antes de contratar qualquer produto financeiro, avalie sua situação e compare as condições oferecidas pelas instituições. Para entender melhor os impactos dos juros, da inflação e do mercado de crédito, continue navegando em nossos conteúdos relacionados.








